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Gol da Alemanha

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A amiga vai embora com a família. Outro país. Este aqui não deu. Cansou de arrancar patriotismo do intestino grosso. Foi consumida pela mortal simbiose entre os estúpidos e os canalhas que faz do Brasil este negócio inviável, este lodo eterno, esta modorra. Não suporta mais. E depois, tem filho pequeno, agoniza na probabilidade cada vez maior de que um bandido escolha seu carro no engarrafamento com a criança presa ao cadeirão. Pensou em colocar película nos vidros, quem sabe até blindar o auto, mas a hipótese a deprimiu. Não aguentou se preparar com tanta certeza para a porrada, mais e mais e mais uma vez no cotidiano pesado, escasso e violento da cidade.  Vai embora para um país de verdade, destes onde se pode andar pelas ruas com o vidro do carro aberto. Exausta e descrente após constantes e covardes ataques dos homens que gerenciam a nação. Canalhas de terno brincando de poder. Homenzinhos e mulherezinhas sem compromisso com a própria história, muito menos com a nossa. Exaus...

O Bem Sem Glitter

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O pior aconteceu: o ser humano aprendeu intelectualmente o valor do bem, do amor, é uma moeda, é uma máscara. Todo mundo ficou subitamente bom e legal. Todo mundo ficou sensível. Por que o ser humano já sacou: o sensível, o consciente, o iluminado, é o cara superior. Eu, por exemplo, sou superior pra caralho. Desculpem o palavrão, eu sei que alguns de vocês acham que me inferioriza usar palavrão, mas estou sendo honesta, transparente, e isto, colegas, também me faz superior. Permaneçam alguns minutos nas garras da minha intelectualidade e posso provar esta minha tese. E amanhã seremos todos autênticos e vamos falar muito palavrão e nos faremos novamente superiores. O discurso do bem é uma criação da mente. E minha mente faz milhares de flexões intelectuais por dia, ela é foda, eu tenho um cabeção Schwarzenegger. Sei todos os truques para parecer legal e uso, às vezes, um ou outro, e me percebo usando, e rio do meu blefe. Sou mais uma no meio da horda de gente legal. Aqui e ali brota...

Procura-te

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Segues insistindo no outro: na culpa do outro, na responsabilidade do outro, no desamor do outro, no abandono do outro. Segues com a cantilena estéril da vítima. Segues esperando que o outro te resolva, te absolva, te salve. Não miras nas tuas ausências, mas na presença de outra na foto ao lado do outro. Não vês que és tu que faltas nas fotos que querias ver? Tu faltas até nas tuas frases onde impera o outro e seus objetos. No meio deles, dos objetos, vislumbramos tu e tua espera eterna do outro. Quando ele virá? Quando ele poderá? Onde ele irá? E reclamas. Não és mais tu, és a que reclama do outro. Não percebes que nada colocas na tua falta, nem uma muda de alecrim na horta seca e esburacada? Nem podes ir ao quintal espiar tua horta, pois estás obcecada em vigiar os planos do outro. E, assim, alimentas teu próprio egoísmo travestido de dor. Sim, és egoísta também só que às avessas. Podias ir ao outro e simplesmente dizer: este é o limite, esta sou eu. Mas queres jogar o jogo da dor. ...

Quando comecei a roubar

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Eu resolvi roubar também. É. Vou roubar os outros. Vou aderir à roubalheira institucionalizada, juntar-me aos maus e engrossar a farra do cada um por si. Chega desta bobagem de querer fazer arte aos trancos e barrancos, implorando esmolas do Estado ou ajoelhando para o marketing dos patrocinadores. Melhor ser criminosa que ser artista nesta triste república verde amarela. Chega. Encheu. Vou chamar umas amigas que também andam bem de saco cheio da falta de tudo reincidente no cotidiano tupiniquim e vamos montar uma gangue. De dia, vamos levando esta vidinha besta de ler jornal e descobrir que fomos vítimas mais uma vez dos políticos, dos líderes da nação e dos chefes das quadrilhas de todos os níveis hierárquicos, mas de noite... Ah! de noite vamos à forra. Vamos tomar o nosso na marra, enfiar uma arma na cara dos que ainda vagam por aí indefesos e arrancar tudo que der. Vamos assumir nosso parentesco com aquele ladrão português que foi abandonado na Terra Brasílis pelas primeiras ca...

Como um general, como um monge

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Kazuo Ohno - Butô Há que se ter uma disciplina assustadora no amor.  Nada mais fácil que se distrair dele. Há tempos me converti de novo na autora da escrita abandonada. Justificavelmente, afinal de contas, eu tenho trigêmeos, eu tenho cachorros, eu tenho gatos, eu tenho casa grande, eu tenho que ganhar dinheiro, eu tenho que tocar projetos artísticos, eu tenho coisas demais que comem tempo. O amado e vital ofício de escrever que se encaixe no rabo da fila das prioridades. Não posso parar uma hora inteira para escrever, é um desperdício inadmissível de minutos na vida de demandas empilhadas que levo. E está tudo bem se não escrevo. O leite não derrama se não escrevo, a criança não perde o ano na escola se não escrevo, não cortam a minha luz se não escrevo. Então não escrevo. É só algo que amo. Amo tanta gente pra quem não dou sequer um telefonema por meses a fio. Amo ficar deitada no quintal no sol de inverno e o inverno já vai acabar e minha pele nem sabe mais o que é sol. Es...

2.0 Wireless

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Fab Lab House em Madrid O rapaz sentado à minha frente, um respiro, uma brisa de futuro bom. Uma geração menos fominha, falando em coletivos, em softwares livres, em dividir, em destrancar. Como se o pêndulo chegasse ao extremo do egoísmo humano e começasse sua viagem de volta. Sem o afetamento dos candidatos a gênio do meu tempo, gente competitiva demais, achando que o mundo era corrida de cavalo. Sem a necessidade de medalha, de prêmio pra colocar no currículo, sem pós, sem MBA, sem nem curso superior ainda, mas já senhor de um conhecimento útil. Desinteressado do ensino formal, nadando em mainframes e saindo de lá com o caminho do fazer. Achando fácil fazer. Falando em resgatar o fácil no cotidiano, desembolar tantos fios que inventamos para nos mantermos de pé. Ser humano geração 2.0 wireless. O rapaz tomando seu café com sorriso e avisando: vai mudar o mundo. E vai mesmo porque é leve e fluido como uma chuva de pixels num céu de LCD. Isto: ele é de outro universo onde eu não ...

Pobre menina pobre

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Foto Thiago Kunz Finalmente descobri por que não sou rica. Minha mente não sabe ser rica. Foi educada para a pobreza. Produz pobreza o dia inteiro. Midas às avessas, transmuta todo ouro que toca em escassez. Aferra-se a vinténs. Tem orgasmos diante de tabuletas de descontos. Não sabe ter. Mesmo tendo, segue na miséria. Escassez interna, atávica, desprazer em gastar, obstinação pelo barato. Moto-contínuo que me mantém ligada à minha infância, a meus pais.  À criança que guarda no bolso do short a foto vincada e rota da geladeira vazia. Criança do short sujo, da camiseta rasgada, dos pés no chão. É ela quem dirige o carro caro que tenho. Dirige, mas não sente. Anestesiada pela culpa. Exultante por fazer sacrifícios. Gata borralheira travestida de princesa, incomodada com coroas e sapatinhos de cristal. Não pode ser rica. Não posso. Iria trair meu passado, meus antepassados. Então me afasto das possibilidades de ganhar grana, penso mil vezes antes de cobrar pelo meu trabalho o qu...