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Vem morrer, vem!

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Venha morrer na próxima chuva! Venha que o país é este! Não vá para o Japão, lá tem governantes sérios, tem funcionários públicos de primeira, você não vai conseguir nem se molhar no próximo Tsunami. Venha para o Brasil. Nós temos tragédias que não saem de cartaz. Escolha a sua encosta, a sua favela no morro e venha, está tudo como sempre esteve e estará. Nós não corremos o risco de um competente, um comprometido, um cara ou muitos caras com autoestima quererem resolver alguma coisa, nós nos garantimos, nós convocamos todos os bundas-moles disponíveis, eles estão à frente da coisa pública e a coisa tá feia e é para sempre: venha morrer na próxima chuva! Venha morrer queimado com seus filhos na nossa favela de papelão. Você não conseguiu morrer no ano passado? Milagrosamente seus filhos saíram vivos do barraco em chamas? Não se desespere meu querido! Você pode voltar!! A favela está lá te esperando!!! Levante sua casinha combustível, de preferência debaixo do viaduto, venha morrer qu...

Boazinha é a Vó

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Não me chame de boazinha. Me chame de vaca, mas não me chame de boazinha. Eu detesto gente boazinha. E não venha me dizer que estou na TPM, o que é verdade. Gente boazinha é caricatura. Aprendeu a bondade na pré-escola e exercita com a espontaneidade de um atendente de telemarketing. Por Deus, não diga nunca que sou boazinha... Este texto agora pode ser lido na íntegra no novo livro da Senhorita Safo.  Disponível a partir de 12/03/2016 no site das melhores livrarias.

Vermelho

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Mãe, hoje, quando desci do avião, tinha as pernas e as calças sujas de sangue. Sua partida acordou meu útero e não houve absorvente que chegasse. Corri para o banheiro do aeroporto, e tive que trocar de roupa. Tudo ficou vermelho e vivo e forte... e eu achei bonito.  Mãe, eu aprendi que o universo enche nossos caminhos de sinais para quem quer ler. Meu útero pintou nas minhas pernas uma despedida vermelha pra você, em vez de cinza. Com o sangue que ele guardou pra receber uma vida, que não veio. Não é linda, mãe, esta mensagem do universo? Morrer e nascer juntos, misturados?  Hoje você se foi. Em mim todas as bocas do feminino se abriram feito flor. A flor do útero pingou sangue. A flor do olho pingou mar. E apesar da dor, do sal, mãe, tudo ficou bem.  A pena, eu molhei no sangue e escrevi estas palavras, o sal, guardei pra temperar os dias que virão. Tem gente ingênua que acredita no fim, mãe. Pessoas de régua no bolso. Elas me acham biruta. Não entendem que estou ...

Eu, a madrasta

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Mamãe você é má. Minha filha de sete anos me diz entre um beicinho contrariado e uma vontade de rir. Sim, eu sou má mesmo, de verdade. Ameacei jogar o fora o bichinho feito de sucata, caso ele não fosse guardado no local devido, e joguei. Dei uma ou duas chances de sobrevivência ao delicado bonequinho de papel, e como ele não saísse espontaneamente caminhando de cima da mesa de estudos e rumasse submetido para o armário de brinquedos, deitei sobre ele minhas garras poderosas de bruxa e arrastei o indefeso e impotente brinquedo para o lixo reciclável. Sou má, mas tenho consciência ambiental.  E minha filha talvez não acreditasse, mas agora não tem dúvidas: mamãe é capaz de coisas terríveis, mamãe não se comove diante dos olhos marejados da pequena e doce princesinha cor de rosa e seu brinquedo perdido. Mamãe não é mãe: ela é a madrasta má dos contos de fada, a perversa criatura com uma verruga no nariz e uma maçã envenenada entre os dedos tortos. E diante desta ameaça dentro do c...

Hoje Ela É Uma Estrela

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(POST PUBLICADO EM MARÇO DE 2010) E lá se vão elas: minha mãe, sua mãe, cercadas de flores, olhinhos cerrados, para o lado de lá. Deixam histórias de mulheres que não precisamos ser. Elas que viveram num tempo sem terapia, sem divórcio fácil, sem a ditadura dos egos e das vontades, sem a fralda descartável, sem o descartável, quando suportava-se melhor a dor, o outro, a falta, e esperava-se um homem voltar da guerra ou mesmo da noite, sem alvoroço. Lá se vão elas deitadas sobre a condescendência e a tolerância que não temos mais. E lá se vai nossa oportunidade de dobrar os joelhos com reverência. Nós as modernas, as autossuficientes, as "uber" profissionais, as rebeladas, as emancipadas, as tais.  Tudo muda. As mulheres mudam. Vamos passando umas às outras a mala refeita. Volto à mala que minha mãe me deu. Nela sempre encontro respostas quando a psicologia, a religião e a filosofia juntas não dão conta. Acho um pensamento de minha mãe e volto para frente. As frases não...

Mais Safo em Vídeo

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Presente do Helio Ishii e da Marilene Grama. Clique na foto. E dia 08 de março , Safo vira livro. Aguardem.

Não Amola Lao

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O tempo é uma coisa criada, apontou Lao Tse. Dizer não tenho tempo é dizer não quero. Um tapa na minha cara. Eu crio tempo para coisas estúpidas. Entre um corredor e outro do supermercado, me arrasto feito um caramujo manco comparando etiquetas minúsculas de preço, analisando demoradamente os sachês de tempero, dispersa entre latas de molho de tomate, e, invariavelmente, compro algo que não preciso. Desconectada de mim, perco o carrinho com as compras e quando, a custo, alcanço o estacionamento, não sei mais onde estacionei o carro. Então vago novamente feito barata alienada atrás da vaga enquanto meu tempo vasa para o ralo. Escolhi ser a mulher do supermercado que não sou e transito pelo estabelecimento sangrando o tempo essencial para a outra que quero ser. Economizei umas cinco moedas e perdi o paraíso. Em casa, crio o tempo de organizar gavetas. Há algo de admirável numa gaveta organizada, quase artístico. Das gavetas, pulo para os CDs, que coloco em ordem alfabética. Dos CDs, s...