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Hoje Ela É Uma Estrela

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(POST PUBLICADO EM MARÇO DE 2010) E lá se vão elas: minha mãe, sua mãe, cercadas de flores, olhinhos cerrados, para o lado de lá. Deixam histórias de mulheres que não precisamos ser. Elas que viveram num tempo sem terapia, sem divórcio fácil, sem a ditadura dos egos e das vontades, sem a fralda descartável, sem o descartável, quando suportava-se melhor a dor, o outro, a falta, e esperava-se um homem voltar da guerra ou mesmo da noite, sem alvoroço. Lá se vão elas deitadas sobre a condescendência e a tolerância que não temos mais. E lá se vai nossa oportunidade de dobrar os joelhos com reverência. Nós as modernas, as autossuficientes, as "uber" profissionais, as rebeladas, as emancipadas, as tais.  Tudo muda. As mulheres mudam. Vamos passando umas às outras a mala refeita. Volto à mala que minha mãe me deu. Nela sempre encontro respostas quando a psicologia, a religião e a filosofia juntas não dão conta. Acho um pensamento de minha mãe e volto para frente. As frases não...

Mais Safo em Vídeo

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Presente do Helio Ishii e da Marilene Grama. Clique na foto. E dia 08 de março , Safo vira livro. Aguardem.

Não Amola Lao

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O tempo é uma coisa criada, apontou Lao Tse. Dizer não tenho tempo é dizer não quero. Um tapa na minha cara. Eu crio tempo para coisas estúpidas. Entre um corredor e outro do supermercado, me arrasto feito um caramujo manco comparando etiquetas minúsculas de preço, analisando demoradamente os sachês de tempero, dispersa entre latas de molho de tomate, e, invariavelmente, compro algo que não preciso. Desconectada de mim, perco o carrinho com as compras e quando, a custo, alcanço o estacionamento, não sei mais onde estacionei o carro. Então vago novamente feito barata alienada atrás da vaga enquanto meu tempo vasa para o ralo. Escolhi ser a mulher do supermercado que não sou e transito pelo estabelecimento sangrando o tempo essencial para a outra que quero ser. Economizei umas cinco moedas e perdi o paraíso. Em casa, crio o tempo de organizar gavetas. Há algo de admirável numa gaveta organizada, quase artístico. Das gavetas, pulo para os CDs, que coloco em ordem alfabética. Dos CDs, s...

Querido Abandonador

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Bruce Mozertom Passei muitos anos revivendo o abandono. Depois de vinte ou trinta vezes que um abandonador entra na sua sala, te trata com intimidade, te abraça e beija, te leva pra cama e te abandona, fica claro: você gosta dele. Não é obra do azar, não é macumba, não é praga de vizinha, nem complô do universo: você gosta dele. O canalha, infantil, galinha, egoísta? Impossível viver sem ele, enquanto ele dura.  Senhor mamão com açúcar e porrada. Chega com seu cilindro de oxigênio e convida para mais um mergulho no paradoxo amor e dor. Obrigatório para os viciados no abandono. Um mergulho fundo demais, que gasta tempo demais da vida e cansa. Com o tempo, abandonados contumazes aprendem o ritual do abandono: é sempre no fundo mais fundo da fossa das ilhas Marianas, onde a escuridão é mais escura e o frio mais frio, que o abandonador arranca a cara da vez e se revela. E, previsivelmente, desaparece com sua lanterna, seu oxigênio, seu abraço escorregadio, suas palavras vagas qu...

Luciana e Rubem

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Deus me dê sensualidade. Que nada tem a ver com beleza. Que nada tem a ver com juventude. Que nada tem a ver com silhueta. Que tem a ver com saber-se.  Lembro-me de Luciana: uma jovem senhora quando eu era uma menina magrela recém-chegada da adolescência. Estudávamos teatro juntas. O exercício era atravessar a sala caminhando com sensualidade. Lembro-me de Luciana, que nunca foi a mais bela, que era mãe de dois, que não tinha namorado, atravessando a sala, sensualmente. De camiseta surrada e calça de malha.  Lembro-me de Luciana escorregando como dedos pela epiderme do chão de tábuas corridas, como língua pelos desníveis do abdome do piso, como uma mensagem perturbadora pelos sulcos úmidos dos nossos cérebros. Lembro-me de Luciana, em seu momento manga madura hipnotizante. Cheguei à idade de Luciana. Já quis menos rugas, menos flacidez, menos grisalho, menos gordura. Quero mais. Quero o poder de Luciana de estimular as glândulas salivares dos outros com meus ombros nus enqu...

Trêmula

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Procura-se o autor desta foto No fundo dos olhos baços, semiabertos, lampejam faíscas de minha mãe. O fim não é acontecimento, é processo. Seguro sua mão frouxa com as unhas que minha irmã pintou de vermelho. Os dedos inertes, pintados de vermelho, não me socorrem. O corpo de minha mãe é só um tecido largado sobre ossos. Às vezes, um sorriso de lucidez, no mais, o olhar ausente para coisas que nunca saberei e o balbuciar de frases quase mudas. Num ritual lento, doloroso, vai se desligando de nós. Meu irmão está prostrado diante do fio de voz carregado de falas incompreensíveis e do olhar que nos atravessa. Inaceitável ausência da pessoa amada dentro de si mesma. Maldade de um coração que insiste contra um cérebro que praticamente se foi. Enquanto rezo para que ela também se vá, ajudo meus irmãos na obstinação de tratá-la e cuidá-la e colocar-lhe remédios na boca que nem sempre engole. Mãe dureza, mãe trator, mãe autossuficiência, mãe porrada, como engolir esta impotência que o uni...

21122012

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Obra de Linyuan Wei Como o mundo acaba daqui a três dias, queria te dizer, especialmente a você, que é bom estarmos juntos. E sei que, ao nosso modo, nos amamos. Daqui a três dias, quando o planeta explodir, no meio do pânico generalizado, só importará sua mão apertando forte a minha. Último conforto dos bichos, como nós, fadados a acabar. Quero que a morte nos pegue de mãos muito dadas, ou quem sabe abraçados, apertados um contra o corpo do outro, quente e vivo, paraíso maior sobre a Terra. Não vamos correr. Vamos ficar quietinhos nesta casa, nesta rua, nesta sala de escritório, que dividimos. Ouvindo o som do concreto se partindo cada vez mais perto, cada vez mais alto. Neste momento, só teremos nós. Nem poder, nem grana, nem beleza, nem opinião, nem crença, nada mais restará de pé entre meu corpo e o seu. Seremos apenas duas frágeis casquinhas de ovo esperando o fim. E então, mesmo que eu mal te conheça, correrei para os seus braços. E você será meu grande amor, meu ma...