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Luciana e Rubem

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Deus me dê sensualidade. Que nada tem a ver com beleza. Que nada tem a ver com juventude. Que nada tem a ver com silhueta. Que tem a ver com saber-se.  Lembro-me de Luciana: uma jovem senhora quando eu era uma menina magrela recém-chegada da adolescência. Estudávamos teatro juntas. O exercício era atravessar a sala caminhando com sensualidade. Lembro-me de Luciana, que nunca foi a mais bela, que era mãe de dois, que não tinha namorado, atravessando a sala, sensualmente. De camiseta surrada e calça de malha.  Lembro-me de Luciana escorregando como dedos pela epiderme do chão de tábuas corridas, como língua pelos desníveis do abdome do piso, como uma mensagem perturbadora pelos sulcos úmidos dos nossos cérebros. Lembro-me de Luciana, em seu momento manga madura hipnotizante. Cheguei à idade de Luciana. Já quis menos rugas, menos flacidez, menos grisalho, menos gordura. Quero mais. Quero o poder de Luciana de estimular as glândulas salivares dos outros com meus ombros nus enqu...

Trêmula

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Procura-se o autor desta foto No fundo dos olhos baços, semiabertos, lampejam faíscas de minha mãe. O fim não é acontecimento, é processo. Seguro sua mão frouxa com as unhas que minha irmã pintou de vermelho. Os dedos inertes, pintados de vermelho, não me socorrem. O corpo de minha mãe é só um tecido largado sobre ossos. Às vezes, um sorriso de lucidez, no mais, o olhar ausente para coisas que nunca saberei e o balbuciar de frases quase mudas. Num ritual lento, doloroso, vai se desligando de nós. Meu irmão está prostrado diante do fio de voz carregado de falas incompreensíveis e do olhar que nos atravessa. Inaceitável ausência da pessoa amada dentro de si mesma. Maldade de um coração que insiste contra um cérebro que praticamente se foi. Enquanto rezo para que ela também se vá, ajudo meus irmãos na obstinação de tratá-la e cuidá-la e colocar-lhe remédios na boca que nem sempre engole. Mãe dureza, mãe trator, mãe autossuficiência, mãe porrada, como engolir esta impotência que o uni...

21122012

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Obra de Linyuan Wei Como o mundo acaba daqui a três dias, queria te dizer, especialmente a você, que é bom estarmos juntos. E sei que, ao nosso modo, nos amamos. Daqui a três dias, quando o planeta explodir, no meio do pânico generalizado, só importará sua mão apertando forte a minha. Último conforto dos bichos, como nós, fadados a acabar. Quero que a morte nos pegue de mãos muito dadas, ou quem sabe abraçados, apertados um contra o corpo do outro, quente e vivo, paraíso maior sobre a Terra. Não vamos correr. Vamos ficar quietinhos nesta casa, nesta rua, nesta sala de escritório, que dividimos. Ouvindo o som do concreto se partindo cada vez mais perto, cada vez mais alto. Neste momento, só teremos nós. Nem poder, nem grana, nem beleza, nem opinião, nem crença, nada mais restará de pé entre meu corpo e o seu. Seremos apenas duas frágeis casquinhas de ovo esperando o fim. E então, mesmo que eu mal te conheça, correrei para os seus braços. E você será meu grande amor, meu ma...

Só as magras e jovens são felizes

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Fala-se demais em alma. Eu mesma, viro e mexo, tasco uma alma na frase. Alma é leve, é diáfana, é transcendente, é coisa de gente evoluída...

Nem Malditos, Nem Assalariados

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Amiga, sejamos o possível agora e não mais a enganosa proposta de ser. Há quanto tempo a meta fria vem nos distraindo dos arrepios viáveis do existir? A meta, carregamos eu e você, feito mala de palhaço. Meta para nós é sólido feito um poema. Rasga a análise da consultoria, a pesquisa do Ibope, as diretrizes do sucesso no esquema pós-pós-pós-moderno.  São como água benta e banho de luz: só funcionam para quem crê. Olha os artistas adaptados, olha os filmes sem alma, olha as peças de teatro burocráticas, olha os atores e diretores e autores funcionários públicos. Não pagam direito as contas, nem cravam as unhas nas costas da história. Nem malditos, nem assalariados. Olha este meio do caminho de merda. Vê nosso esforço ridículo para fazer a arte que agrada ao ministro, ao gerente de marketing, à dona de casa, à classe C. Vê os projetos pasteurizados e mentirosos que inventamos e onde tentamos esconder, feito parasita, um tiquinho do nosso jeito de amar a vida. Vê como não existe águ...

Safadas Sois Vós Entre as Mulheres

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Eu sou a que nela geme Eu sou a que nela arfa Sou aquela que saliva Eu sou aquela que vaza No copo cheio da vida Eu me deito com mulheres Eu me entrego aos vigias Eu sou a mulher que nela Escurece ao meio dia Eu sou a de boca suja A que só quer te usar Sou a que crava os dentes Faz propostas indecentes A que gosta de apanhar Sou a que grita na rua E atende à porta nua A sem juízo nenhum Eu sou a que ela nega A que nela morre a míngua Sou sua língua cortada Eu, sua faca cega. * * Ao lado, retrato de Senhorita Safo por Vera Vivas da Cal . *

Pés Direitos Duplos

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Quando casei, fui morar numa casa grande. Quatro andares. Meu marido é um leão de casa grande...