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Um sharpei na barriga

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O cirurgião plástico avisou: te dei uma barriga nova mas tem que saber usar...

Planeta

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Amar o vento que empurra a água em salgadas marolinhas Amar a água que empurra a folha tal qual barquinho Amar a folha que desgruda da água carregada pelo vento Amar o vento que acaricia a Terra em seu espetáculo diário. * * *

Para Letícias

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Outra vez o homem errado. Letícia baixou a tampa do vaso sanitário e sentou-se aos prantos. O banheiro minúsculo do bar e o cheiro de mijo faziam aquele pé-na-bunda ainda mais decadente. Tentou segurar o choro, lá fora uma fila de mulheres esperava, mas não conseguiu. Foda-se, de vez em quando se permitia uma lamazinha básica. Sai dessa lama, Letícia. Brincava a irmã mais velha, muito bem casada mãe de família. É lama de Araxá, retrucava sorridente. Mas doía. Aos 34 anos estava cansada de não acertar. As esperanças de casamento, filhos, família escorriam entre seus dedos. Outro dia havia assistido na TV uma matéria assustadora sobre o cromossomo Y. Estaria se extinguindo, acabando. Os americanos, sempre os americanos, já estavam até fazendo um banco de ipsilons. A humanidade angustiada e auto-destrutiva cometia um suicídio genético. Em breve, pensou Letícia, seremos milhões de mulheres, milhões de espelhos solitários, milhões de buracos sem tampa, vagando desorientadas sobre a Terra. ...

A Hora do Sim

As esposas de hoje, pobrezinhas Não são tão antigas para serem felizes Nem tão modernas para serem sozinhas * * *

A Vítima em Mim

É raro percebermos a vítima em nós. A vítima ensanguentada é a mais sutil das criaturas. De repente, me pego crivada das flechas: o marido não reconhece o esforço sobre humano que faço para desempenhar as milhares de tarefas diárias, os filhos me enlouquecem com suas demandas eternas, o trabalho me consome com sua pressa e total insensibilidade, o mundo me pressiona, me exige e me devolve pouco. Por que ninguém me coloca alguns segundos no colo, por que não percebem o meu cansaço, a minha tristeza, a minha dor? Como podem querer que eu seja feliz assim??? E então, súbito, me pergunto a quem dirijo todas estas lamúrias. A providência de quem será a minha salvação?? Quem é este surdo que não escuta minha dor? O marido, os filhos, o chefe, os amigos?  Hoje, na hora da janta, deixei meus filhos comerem ou não comerem, e comi em paz, levantei-me da mesa e peguei meu I-Pod, atravessei a cozinha onde todos ainda jantavam e desapareci pelo portão que dava na rua. Caminhei uma hora enquan...
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Eternidade

O último ser humano tombou sobre a terra, morto. De joelhos, sobre a terra, caíram milhares de anos de história. A saga de um bicho estranho terminou. Nunca mais palavras humanas - uma boca humana cheia de sons. Agora outros bichos... que talvez já estejam por ali enquanto esfria o corpo do último ser humano. (Quem serão eles? Os que vão achar nossos ossos, nossas cidades vazias, nossos restos.... Terão cinco dedos? Dois? Doze?) O último cérebro humano. Os últimos impulsos nervosos trazendo do olho a última imagem vista por nós que eu, infelizmente, nunca saberei. Ele caiu. Por quê? Não importa, há milhões de motivos para se acabar. As estrelas ficarão com saudades das nossas escadas cada vez mais altas que nunca chegavam, mas vão pensar que, em compensação, haverá menos lixo no espaço. Não. Sinceramente as estrelas não sentirão nada, a poesia estará extinta... Teremos acabado enfim, e é só. Ele está lá caído, eu o vejo, me aproximo dele, percebo que já esfriou. Sigo então rodopiando ...