Enquanto derretemos

Minha caixa craniana parece que vai rachar como casca de ovo cozido tamanho o calor deste sol de inverno... outono?... primavera? Ninguém sabe mais. Estou largada sob o sofá extensível feito um jacaré à beira do rio. Alcanço o controle remoto da TV e assisto um filme... dois filmes... Preciso levantar e fazer algo útil, mas só consigo boiar feito um pedaço de carne numa sopa de legumes. O ventilador soprando firme na minha cara um ar cada vez mais quente. Não sigo para o terceiro filme, me iludo de que preciso checar as mensagens do whatsapp atrás de algo importante... é só um cacoete pra que eu divague para as redes sociais e passe mais uma hora babando enquanto vozes engraçadas dublam vídeos de bichinhos fofos ou crianças famélicas e machucadas surjam em apelos desesperados da Cruz Vermelha, dos Médicos sem Fronteira, da Acnur... Maldito algoritmo que sabe da minha terrível culpa em existir deitada neste sofá extensível enquanto crianças morrem. Uma hora empurrando a tela com o dedo ...