O Céu dos Outros

Dia chuvoso. Na cidade pequena, da igreja pequena, saem famílias, casais, crianças, jovens... É como se olhasse para um outro tempo. Não vivo mais nesse tempo. Não tenho mais esta relação com Deus, família, casamento. Estou do outro lado da rua observando o sorriso desta gente que eu poderia chamar de conservadores. Não vou fazê-lo. Se usasse para medi-los a minha régua de hoje poderia ser seduzida a transformá-los em caretas, anacrônicos, superados, reacionários, antiquados... e seria até capaz de odiá-los com o tempo. Fixo minha atenção no sorriso da menina de saia e cabelos compridos. Ela me vê e sorri mais largo ainda: aquela aceitação ilimitada dos que ainda não se conhecem. Não trisco a mão na minha régua. Quero seguir amando todos eles com seus limites que para mim não fazem mais sentido. Porque estão felizes do outro lado da rua que talvez na verdade seja um abismo mas por cima do qual o sorriso da menina atravessa. Ela não sabe que sou cercada de pessoas muito diferen...