Culpa sua

Alguém é culpado. Da minha dor. Um carrasco recebido de presente enrolado em papel celofane com um laço de cetim furta-cor. Meu carrasco particular. O nome dele pode ser João, meu marido, mas pode ser até a ingratidão do mundo, ou esta minha perna mais curta que a outra, minha gordura, meus filhos. Culpado essencial que me concede o orgasmo de exibir, em praça pública, minhas costas rasgadas a chibata. Eu, porém, não sei de prazer. Só sei que sofro. Aponto meu carrasco para os amigos, na terapia, choro, me dilacero. Mas não consigo deixá-lo por quê? o amo. Não o amo. Preciso da dor na qual me viciei. Mas disso, não dou fé. Tenho milhares de razões para sofrer e vou esfregá-las na cara de qualquer fulaninha que venha me apontar a porta aberta da felicidade. Quero seguir dançando doida no palco com meu vestido branco encharcado de sangue, fazendo rastros vermelhos por onde passo. Minha plateia, cheia de culpados e vítimas, me entende, se contorce comigo nas minhas cólicas. Choram ju...