Escrito no Céu para Nany

Com a amiga aprendi o poder do bicho solto. Eu, contumaz encarceradora de bichos internos, sempre gravitei em torno dela com admiração. Os bichos da amiga, os mais feios, sempre tinham convite para o baile. Enquanto eu os mantinha encarcerados no porão em nome de um baile asséptico. Ela não:  a inveja e suas olheiras fundas podia bailar trôpega com a raiva no meio do salão. Com a amiga entendi que os bichos são menos agressivos na luz. E que prendê-los não impede que atuem sobre o  outro e o mundo. Com ela aprendi a olhar para o vestido puído da minha vergonha remendado de humilhação e deixá-la falar. Minha vergonha não só pôde entrar no baile mas desabafou longamente com a vergonha da amiga sua inapropriação eterna. Os bichos soltos, assumidos, as jaulas abertas, tornaram o meu porão mais arejado e minha caminhada mais leve. De vez em quando ainda acho um orgulho, uma inveja profunda, uma insegurança monstruosa trancados por lá nalguma salinha escura. Ligo pra amiga e corremos para uma padaria próxima, pedimos um café, mandamos a orquestra tocar no baile. E introduzimos o bicho recém liberto na festa. Ele entra ressabiado, temeroso de novos grilhões e pancadas e,  magicamente, vai ficando menos cinza. Falamos uma para a outra o nosso inconfessável e é comum aquela dor que brotou do meio do peito feito Alien se transformar numa salvadora risada. E isto me dá segurança de mostrar meus bichos para outras pessoas. E os bichos que eram minha morte vão se tornando apenas o que realmente são: minha humanidade imperfeita. Não sei se a amiga sabe o quanto me cura apenas sendo generosa com sua feiura. Temo que ela não entenda o poder amoroso da sua feiura explícita, não resolvida, mas abraçada. Por isso mandei um avião escrever este texto com fumaça no céu azul que sempre volta a pairar sobre sua casa.
*
E também para Andrea, Chica, Paula, Elô, Mariska e seus bichos.
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Pequeno Príncipe e a Cobra

Ilusão

Platão e o Macaco Pelado