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Nós, os cascudos possíveis

Estou mais direta e grosseira. É a idade. Não me gasto mais em rodeios: em geral, digo o que penso.  Passei o pico da montanha e não tenho mais tempo para perder com jogos. Tratei de me fuçar bastante neste quase meio século e me conheço razoavelmente: sei o que gosto, o que aguento, o que não vou negociar, onde o calo me dói. E os calos me doem, acredite. Abri mão daquele sonho de chegar ao Nirvana existencial e aprendi a levar meus calos estrada afora num sapato mais largo. Ganhei paciência para muitas coisas e perdi totalmente para outras. Procuro ser honesta porque aprendi que dá menos trabalho. Só isso. Não quero medalha. E também aprendi a calar quando vejo que falar é perda de tempo. Se a questão é ter razão, tenha você. Já colecionei razões demais, receitas de vida, fórmulas de perfeição, lixo da mente que precisa se provar. Ninguém fica mais feliz porque tem razão. Entendi o que um velho amigo tentou me ensinar quando disse: faço até o que não gosto, mas o que não quero, não faço. Sim, a gente precisa fazer muitas coisas das quais não gosta, com gente que não gosta, mas não precisa ser vítima de nenhuma delas, tudo é escolha, até o que vou fazer daquilo que não gosto e com quem. Posso dizer não, sempre. Calculo o preço a pagar pelo sim e pelo não e escolho. E para tudo que disse sim a responsabilidade é minha. Por isso também me tornei mais grossa com você que vem jogar, que vem me propor o blefe. Não tenho pena de você mais. Nenhuma. Seu sim é responsabilidade sua, não venha chorar no meu ouvido. A felicidade é possível, como escrevi num poema da juventude, com trovoadas esparsas de tristeza. É a felicidade que temos para hoje. E eu não tenho mais tempo para modelos de felicidade em elaboração. Felicidade eternamente em planejamento enquanto a vida escoa. Estou mais rápida no gatilho quando se trata de estourar a cabeça do meu fantasma ou do seu. Já entendi que fantasmas não precisam se desintegrar, podem coexistir nos espaços luminosos da minha casa, mas não venham com arroubos narcísicos tomar conta da cena com seus dramas eternos que lhes meto bala na cabeça. Detalhe: cabeça de fantasma renasce, e ele possivelmente voltará. Não me importo. Mas sei que estou mais grosseira, principalmente aos olhos de quem se confunde com os próprios fantasmas. E acho que vou piorar muito daqui pra frente. E serei menos aplaudida. E tudo bem. Já entendi a vital diferença entre o aplauso e o apreço. Estou mais grosseira e mais inteira nos meus amores. O tempo que eu gastava blefando e jogando com você, estou usando para tentar amar. Aqui e agora, os seres cascudos possíveis no mundo cascudo possível.
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Comentários

  1. "Teus ombros suportam o mundo, mas ele não pesa mais que as mãos de uma criança..." Carlos Drummond de Andrade

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    1. "No escuro em que fazes anos, no escuro, é permitido sorrir." IDEM

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