Pular para o conteúdo principal

Culpa sua

Alguém é culpado. Da minha dor. Um carrasco recebido de presente enrolado em papel celofane com um laço de cetim furta-cor. Meu carrasco particular. O nome dele pode ser João, meu marido, mas pode ser até a ingratidão do mundo, ou esta minha perna mais curta que a outra, minha gordura, meus filhos. Culpado essencial que me concede o orgasmo de exibir, em praça pública, minhas costas rasgadas a chibata. Eu, porém, não sei de prazer. Só sei que sofro. Aponto meu carrasco para os amigos, na terapia, choro, me dilacero. Mas não consigo deixá-lo por quê? o amo. Não o amo. Preciso da dor na qual me viciei. Mas disso, não dou fé. Tenho milhares de razões para sofrer e vou esfregá-las na cara de qualquer fulaninha que venha me apontar a porta aberta da felicidade. Quero seguir dançando doida no palco com meu vestido branco encharcado de sangue, fazendo rastros vermelhos por onde passo. Minha plateia, cheia de culpados e vítimas, me entende, se contorce comigo nas minhas cólicas. Choram junto quando executo meu Grand Finale e me esborracho no chão de olhos vidrados. Não, não é uma farsa, dói de fato e por isso meu espetáculo é único. E é meu. Sou a senhora absoluta da minha tragédia. Nem o carrasco, com sua extrema maldade e egoísmo, consegue ofuscar minha performance de mártir inocente, impotente, vulnerável. Dentro da redoma, sou estrela e dona do espetáculo do meu sofrimento. Coitada! - murmuram os desavisados - e eu solto um gemido mais alto. Abro a mala de mágoas e distribuo culpas a todos os coadjuvantes do meu drama. Alguns guardam, outros espertos largam jogadas no chão, e seguem pisando firme. Há quem tente me acordar para a vida que passa. Sigo hipnotizada por minha própria criação, focada no carrasco, agarrada ao banco, na milionésima volta do circular trem fantasma.
*
*
*

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Amar não basta. Gravo a mensagem no whatsapp e envio para a amiga. É uma faca no estômago, eu sei. Tantas pessoas se separam se amando. Eu mesma já fui embora arrastando o coração pelos cabelos umas duas vezes. Doloroso demais. Cruel demais. Mas acontece de as possibilidades se esgotarem, de fato. Acontece de precisarmos estar sós naquele trecho da estrada. Acontecem estradas diferentes com interseções que nunca mais se repetem.  Acontece de a dor ficar insuportável. E então a morte se impõe, mas nem sempre a aceitamos de pronto. Acontece de, primeiro, tentarmos blefar o adeus. Vivenciar o fim com a certeza de que o navio não deixou o porto. Ir sem ir. Começa o vai e vem sofrido: separa e uiva de dor, volta e uiva de prazer. Nada como voltar do fim: uma bomba de serotonina. Mas a volta não é inteira, não é a que planejávamos, e logo a falta se apresenta, e a dor retoma o palco e ensaia um novo adeus. Amar não basta, amiga. É preciso amar-se junto. Senão o outro vira eterna ameaça de …

Para o meu fantasma

Adeus e obrigada. Foi bom girar nos seus braços nesta valsa inesperada. Obrigada pela Duquesa, pela Gata Borralheira, pelo pai e pelas crianças minhas que você nem sabe que me deu. Obrigada pelo espelho onde pude pentear a minha vaidade, pelo lugar de destaque na sua corte que pude chamar de pouco. Foi doloroso ver meu tirano no seu, mas foi como um parto. Dor valiosa de onde nasci novamente. Obrigada por tudo que você nem sabe que foi. Por ter ido tão fundo em mim sem nunca ter deixado a superfície das suas vontades. Por ter me notado. Por ter chamado meu nome. Por ter evitado o meu mergulho e me devolvido a mim. Coloco este agradecimento e este adeus numa garrafa e lanço no rio de nome universo. Incógnita, me despeço. Remeto este adeus agradecido à sua alma que há de me escutar numa dimensão distante. Adeus e obrigada pelas provocações de menino, por acordar o meu menino, por dançar comigo esta dança breve, desatenta, mas necessária. Verdadeiramente, obrigada, segue seu caminho. Ab…

Estranha Paz

Ah, esta paz de me sentir só que dá até medo. Estou sentada no restaurante, indecentemente só. Não pertenço a nenhum quadro. Nenhuma moldura me contém. Não sou sua mãe, sua esposa, sua amante, sua amiga. Sou folha seca na ventania lindamente desgovernada. Que medo de enlouquecer e sair vagando pela rua. Largar o carro. Ir andando até uma rodoviária. Comprar uma passagem para o nada. Virar pessoa desaparecida, forasteira, perder as referências, escafeder, sumir do mapa. Todos viajaram. Faz uns dias que estou só. Devolvida à minha pureza sem demandas. Sem idade, sem rugas, sem pressa, sem expectativas. Este prazer na solidão que me assusta. Só eu no restaurante atrás de uma caneca de chope. Um cara no piano tocando jazz. E não falta nada. Meu Deus, preciso confessar e é terrível: não falta absolutamente nada.  * * *