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Legumes no Copo

Jantávamos. O ritual de sempre não fosse o copo de vidro cheio de legumes ao lado do meu prato. Fitei perplexa a instalação vítreo leguminosa e busquei no marido e filhos uma explicação para o evento desconexo. O marido balançou a cabeça, incrédulo. Minha filha apontou com o dedinho o autor da façanha: eu. Imagine muitas reticências, milhares delas, que comportem o silêncio onde paralisei ao descobrir que alguns segundos da minha vida haviam sido apagados. E pior: segundos absurdos onde um ser com minha pele, músculos, ossos, órgãos, meteu cinco a seis legumes dentro de um copo de vidro transparente. Rimos. Mamãe está maluca, disse eu para a pequena. Está ficando velha e gagá, reiterei. Ela riu. O jantar seguiu seu rumo sem novas ocorrências exóticas. Mas o breve apagão mudou-se feito pulga para as veredas posteriores da minha orelha. No caos absoluto do vai, faz, corre, pega, tira, muda, liga, desliga, compra, põe, acha, marca, desmarca, aperta, aperta, aperta... brotou um branco puro e legítimo onde eu não pude ou não quis mais estar no mundo. Pop! Puxei a tomada e o mecanismo seguiu meio desgovernado e autômato fazendo qualquer coisa absurda que não necessariamente tivesse propósito, mas que fosse um arremedo de gesto humano. Seis legumes num copo. Um dos vinte pratinhos girando do equilibrista foi ao chão, se espatifou. Talvez uma leve epilepsia, talvez uma estrondosa falta de sentido no pelejar cotidiano. E me perdi de mim, como uma morte mínima, um espasmo de abandono absoluto, um grito marcante e solitário na noite depois do qual não se pode mais dormir. E não sei ao certo o que foi. Mas sei que já foi muito. E é hora de abraçar meu pavor de ser, abraçar com braços e pernas e ventre, me agarrar ao mal que me limita, o mal gigantesco que me deforma, seja qual for, e sugá-lo com força para dentro dos meus olhos, engoli-lo com as retinas castanhas, absorvê-lo e então morrer numa explosão de luz. A morte da casca da cigarra, do simulacro que espero, que esperam, de mim. A morte da mulher que coloca legumes em copos e amor em buracos negros, a morte necessária ao meu existir.
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