Maria-Sem-Vergonha

Afogava irritada e impotente em meu criativo quando explodiu feito Alien do meu peito e alastrou-se em mim, feito Maria-sem-vergonha, a fazeção. Quero fazer. Não vim ao mundo para botar ovo, vim comer omelete. Quero fazer. Não estou interessada em evolução psicoespiritual que não se materialize em obras e ações.  Minha questão não é mais ser ou não ser. Já fucei o ser demais, já nasci e morri demais, já mudei o cabelo demais, e sou. Sou isto aí que está e que ainda muda um pouco. Os existencialistas que me engulam: sou para fazer. Chega de pensar na cor da casa, chega de calcular o número de latas, chega de forrar o chão com jornal: eu quero a tinta encharcando o pincel e escorrendo pela parede. Já rodei muito a lâmpada porque uma titica de um reflexo estaria comprometendo o enorme plano sequência de uma possível realização. Então o destino me enterrou sob uma avalanche de filhos e empregadas e trabalho e bichos de estimação e babás e casa e carros. E eu não podia mais me dar ao luxo de fuçar minhas feridas, de rodar lâmpadas. Vi minha escritora morrendo entre os escombros. Cheguei a dar adeus a ela, mortificada pelo arrependimento de não ter feito mais agora que era tarde demais. E o pavor de não ter tempo outra vez para fazer o que eu amava me fez desautorizar o tempo, desautorizar a avalanche, desautorizar o “não” e desmistificar meu complicado. Contradizer o ser pelo amor ao fazer. As viagens da mente não me bastam, quero ver minha pegada na Lua. E a Lua agora não está mais a trezentos e oitenta mil quilômetros e não precisa de foguetes ultratecnológicos e milhares de técnicos e anos de treinamento para ser pisada. Minha criatividade, a serviço do meu fazer, a serviço do meu amor, inventa uma Lua na esquina da minha casa, a Lua possível, palpável, e piso nela, e apoiada no chão de fato, então voo. 
*
*
*

Comentários

Postar um comentário

Não tem conta Google? Assine, clique em ANÔNIMO e em PUBLICAR. É fácil! Bjooo.

Postagens mais visitadas deste blog

Amar não basta

Para o meu fantasma

Estranha Paz