21122012

Obra de Linyuan Wei
Como o mundo acaba daqui a três dias, queria te dizer, especialmente a você, que é bom estarmos juntos. E sei que, ao nosso modo, nos amamos. Daqui a três dias, quando o planeta explodir, no meio do pânico generalizado, só importará sua mão apertando forte a minha. Último conforto dos bichos, como nós, fadados a acabar. Quero que a morte nos pegue de mãos muito dadas, ou quem sabe abraçados, apertados um contra o corpo do outro, quente e vivo, paraíso maior sobre a Terra. Não vamos correr. Vamos ficar quietinhos nesta casa, nesta rua, nesta sala de escritório, que dividimos. Ouvindo o som do concreto se partindo cada vez mais perto, cada vez mais alto. Neste momento, só teremos nós. Nem poder, nem grana, nem beleza, nem opinião, nem crença, nada mais restará de pé entre meu corpo e o seu. Seremos apenas duas frágeis casquinhas de ovo esperando o fim. E então, mesmo que eu mal te conheça, correrei para os seus braços. E você será meu grande amor, meu maior amigo, meu herói. E eu te perdoarei, mesmo sem saber os seus pecados. E eu te aceitarei integralmente, mesmo sem conhecer os seus defeitos. No desespero de acabar, tentarei mergulhar no seu peito, me esconder dentro de você, e entenderei a irônica mensagem: eu sempre estive aí dentro. Enxergarei meus olhos na sua visão superficial do mundo. Minha barriga nas suas plásticas idiotas. Minhas vontades nos seus rompantes de egoísmo. Meus exageros no seu esmalte escandaloso. Meu orgulho na sua prepotência esnobe. Minha raiva no seu trinta e oito carregado. Minha  mediocridade na sua covardia. As paredes caindo, os prédios caindo, o chão indo embora sob os pés, e este milagre de finalmente nos jogarmos nos braços um do outro. E eu descobrindo que queria começar tudo de novo com você. Outro mundo mais bacana. Sabendo que você é capaz deste aperto de mão, deste abraço. Mas não estamos num blockbuster do cinema americano. E vamos mesmo morrer, os dois. E será daqui a três dias. Então quero deixar registrado, não para a posteridade que não teremos, mas para você, pessoalmente, que desconheço, que recrimino, que desprezo, que odeio, que tolero, que ignoro, que mato a tiros, esta descoberta efêmera e a toa: nada neste mundo foi melhor do que você.
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Se o mundo não acabar, Safo volta em Janeiro.
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Comentários

  1. O outro des-conhecido que cobrimos de beijo e aceitamos prá pular cova adentro sou eu, em versões modeladas onde na versão especial Nanna de Castro guardo amor profundo; daqueles das escolhas essenciais que fazemos para poder levar a história do mundo até onde o fim exista ou não mas onde ela, a história, simplesmente, sempre se conte por mãos tãos delicadas e cheias de verniz e sangue e suor e calos e suavidade sem fim. Eu te amo de um tanto! De um tanto! Essa mulher que chega na ida da outra Nanna que se esvai pela pele é puro amor e intensidade e eu quero ser todos os textos palavras e acentos.

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  2. ... como duas duas frágeis casquinhas de ovo vamos todos romper, bem como você mencionou, no entanto, como um ovo, se a quebra for de fora para dentro haverá morte, mas se ocorrer de dentro para fora surgirá uma nova vida! Alguma coisa vai mudar!

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  3. Minha querida senhorita Safo, que sejamos capazes, realmente, de nos jogar, uns nos braços dos outros...
    E avise a dona Nanna que eu quero falar sobre o medo, mas o final de ano chegou e agora, pelo jeito, só no ano que vem, né?

    Grande beijo para vocês e boas festas!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Se não acabar, vamos bebemorar?

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