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Ladeira Abaixo


Me surpreendo correndo desarvorada ladeira abaixo rumo ao fim da vida. E paro. Hoje vi estupefata surgir a primeira lojinha de enfeites de Natal. E a minha Páscoa foi ontem. Onde eu enfiei estes milhares de horas de vida que se esparramam entre um evento comemorativo e o outro? Em algum momento perdido, ou talvez aos poucos, fui assumindo meu lugar no fast food da vida. Não saboreio mais o tempo. Corro. Repriso tarefas cotidianas. Não presto mais atenção nos caminhos de sempre. Chego à porta da escola  levada por um mecanismo parassimpático autônomo que gira o volante e engata as marchas e aperta os pedais. Estava na porta de casa e agora estou lá. Sou um autômato dirigindo o carro pelas mesmas ruas e curvas e desviando dos mesmos buracos. Alienada de minha ação rotineira no mundo, deixo de existir. As vivências repisadas nada mais dizem ao cérebro, elas simplesmente passam. O novo é o que acorda os órgãos cansados dos sentidos para a vida. Por isso, quando pequenos, nosso dia é eterno. Nadamos no mar das novidades e o tempo flui lento enquanto prestamos atenção em cada degrau, cada movimento, cada forma ou cor nova à nossa frente. E de repente crescemos e sabemos demais, entendemos demais e ligamos o piloto automático e escolhemos a cegueira do exaustivamente conhecido.  Raramente ou nunca mais o frio na barriga do inusitado: um filhote de cachorro dentro da caixa de papelão. Chacoalhão da vida.  Estamos prontos demais. Como uma pedra que adquiriu sua forma final e rola empurrada pela água do rio. Estou rolando rumo ao final da minha vida e já é quase Natal. De novo. Parada aqui no meio da ladeira, decido que amanhã começo a aprender mandarim, me inscrevo num curso de dança cossaca, ou simplesmente escolho um caminho mais longo para ir buscar meus filhos na escola, um que demore mais como a minha vida de criança e por onde eu nunca tenha passado. Lá um buraco, um muro pintado de rosa, um cheiro de queimado, um gato gordo, umas velhinhas acotoveladas na janela, me devolverão aqueles instantes do existir. E não serei mais uma ausência em movimento. O novo, que sempre esteve à minha volta, me ressucitará.
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Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Muito bom seu texto. Me lembrou certa vez que verifiquei estupefato o odômetro de minha velha Rural zerar e voltar a marcar os mesmos 15.000 Km que lá estavam no painel quando eu a peguei, uns 8 anos antes. 100.000 Km eu havia rodado com aquele carro. Poderia ter dado 3 voltas na terra e o lugar mais distante que fui com ela foi o sítio de um amigo, 250 Km de casa.
    Você falou do tempo. Eu me lembrei do espaço. Quem me prendeu nesse perímetro? Meus trabalhos, meus desejos, meus filhos. Nada disso. Quem me aprisionou fui eu. E seguro presos comigos meus filhos, meus desejos e tudo o que faço.
    Pra que desejar tempo mais longo se não vou a lugar algum com ele? Melhor que passe rápido.
    Não, melhor mesmo seria tomar rapidamente uma atitude e mudar essa história de vida triste. Não é fácil(qual o nome super-herói que poderá me salvar de mim mesmo?) O consolo é que não é só comigo que acontece. Mas que consolo, ein?

    ResponderExcluir
  3. É isso, isso que tá faltando em minha vida!!!

    "As vivências reprisadas nada mais dizem ao cérebro..." Lindo
    , lindo!!!


    Bjo!!!!!

    ResponderExcluir

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