7.9.11

Amanhece


Quando eu tinha vinte anos, mamãe diagnosticou minha vocação para o suicídio financeiro. Nesta época, eu me dividia entre um curso superior de psicologia e um profissionalizante de teatro. Formar-se em psicologia e teatro é não ter plano B.  É bater duas vezes na tecla da marginalidade, da desvalia. Aquela, a filha torta, bastarda, da ciência. Este, a morada de excêntricos e adoráveis vagabundos. A gente já desce lá do céu com esta marca nas costas e cai de boca num mundo fliperama movido a moedas. Aos vinte anos, minha mãe desejou para mim algum concurso público que me salvasse. Mas acolheu a corda bamba em meus olhos. Fiz a mala, cobri as roupas com meus dois diplomas e caí na estrada em busca da sobrevivência. E sobrevivi. Aos trancos e barrancos, catando cavacos. Juntei a psicóloga e a atriz na contadora de histórias e aprendi a vender minha poesia aos donos do mercado. Sobrevivo. Vez em quando o desespero e a vontade de tentar ainda o concurso público batem à minha porta. O coração não é mais  jovem e o futuro está aí. A velhice está aí. O abismo está logo aí. Pendurados em sua boca estão meus amigos artistas, esta gente fascinante e dispensável no planeta fliperama. Alguns já foram engolidos pelo escuro. Penso seriamente em fazer algo que não amo para dar certo, colocar lentes azuis nos meus olhos castanhos e enganar o mundo. Minha mãe ri já desistida dos meus concursos públicos. Diz pra eu me sentar à beira do abismo e escrever uns versos e arremata que me ama. A gente não vem ao mundo pra dar certo, filha: a gente vem ao mundo ser feliz.  E o abismo amanhece. 

Para Chico de Assis, o mestre.

4 comentários:

  1. Eu larguei a psicologia no segundo ano e fui fazer artes cênicas, gerando uma verdadeira crise familiar! Para a minha família a psicologia era bem preferível ao teatro...
    e sobre mais essa coincidência em nossas trajetórias, eu nem vou comentar... rs

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  2. Wow, N., as duas últimas frases bateram. Muito.

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  3. Porque é que a mãe da gente sempre quer nos empurrar para o mais fácil (ou não!) e óbvio? Tenho quase 40 anos e ouço a minha mãe falando sobre concursos públicos. E às vezes, como você, penso se ela não tem razão. Enfim, quero é mesmo ser feliz!
    Beijo

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